terça-feira, 14 de maio de 2013

A mídia da vez: Maioridade Penal


Pois bem, já que estou com mais um bloqueio criativo em relação à quarta (e última) parte de Cinza, vou interromper a ordem das postagens pra me pronunciar acerca do tema que está mais “na moda” da mídia: a redução da maioridade penal.

Minha opinião é controversa? Sim. Mas também tento ser o mais realista possível.

Existem, ao meu ver, dois polos extremamente opostos nesse debate: os fanáticos, utópicos e absolutistas morais dos direitos humanos e, no lado oposto, o discurso popular mobilizado pelas diversas formas de mídia, poder público e estatísticas divulgadas.

De um lado pede-se, a grosso modo, que ignore-se os delitos, que são apenas crianças, que não sabem o que fazem. Do outro há uma clemência por justiça, pelo encarceramento, pela limpeza.

O que eu penso disso? Ambos os lados têm seus pontos corretos mas, na minha opinião, a redução da maioridade penal é o mais acertado a se fazer no momento.

Por que eu, um estudante de psicologia, comprometido com o futuro do país e da sociedade, acredito que a redução seja a melhor opção no momento?

Porque há, de fato, um aumento substancial no índice de crimes cometidos por menores, porque, recentemente, eles saíram do papel de apenas bodes expiatórios para chefes de esquema, dada sua invulnerabilidade penal, e estão tocando o terror. Quando apreendidos, riem, fazem escárnio ou, no mínimo, dizem-se arrependidos enquanto em pouco tempo muitos voltam a cometer os mesmos delitos. Mas isso irá resolver o problema da criminalidade? Não.

Em seus estudos, Skinner teorizou e comprovou que as práticas sociais do nosso mundo ocidental estão muito mais focadas no que os behavioristas chamam de Controle Aversivo, ou seja, punições, castigos, supervigilância com os erros e pouco incentivo nos acertos. O encarceramento é uma das mas severas aplicações deste conceito, já que priva o indivíduo do sentimento de liberdade. Juntando essa privação com o ambiente quase sempre violento e desumano das casas de custódia, a probabilidade de sentimentos, pensamentos e comportamentos violentos virem a ocorrer se torna maior e, já que o nosso meio social não tende de modo algum a reforçar comportamentos contrários (principalmente aqueles direcionados para o “bem” da comunidade), a tendência é se manter nesse círculo vicioso.

O que me faz ser contra o discurso (e geralmente contra muitas das propostas dos direitos humanos) é a total e utópica acepção que eles têm de ser humano. Muitas vezes me parece que eles creem que há algum tipo de “natureza humana” e que ela é “boa”, logo, se ignorarmos o que está aí, os comportamentos apresentados pelos criminosos e delinquentes juvenis de hoje, apenas com uma reestruturação do sistema (que, para eles, parece que pode ocorrer num passe de mágica) tudo mudará. Vejam bem, o controle aversivo não é a melhor prática para ensinar ou suprimir novos comportamentos, mas está longe de ser dispensável para a regulação social. Embora o reforçamento positivo (oferecer consequências favoráveis â manutenção de determinado comportamento em situações semelhantes) e a extinção operante (quando determinado comportamento deixa de ser reforçado e para de ocorrer) sejam os melhores modos de mudar o repertório comportamental de uma pessoa, há certas condições que o controle aversivo deve ser utilizado (nas questões de crimes graves, como roubo, furto ou homicídio, por exemplo), mas APENAS a aplicação de uma pena não satisfaz.

Qual a minha proposta então?

Reduzir por um período (digamos, de cinco a dez anos) a maioridade penal MAS, aliado a isso, promover uma série de mudanças no modelo prisional (tomando como exemplo os modelos nórdicos) e elaborar sistemas de ascensão cultural* (com uma mudança tanto nos modelos educacionais quanto políticos). Se feito do modo correto, nessa década de mudanças haveria uma significativa redução dos índices de violência, mas aí esbarramos em um (eterno, ao que parece) empecilho do nosso triste país: os responsáveis pelo sacrossanto Estado Democrático brasileiro.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Cinza #3: Dor


Naquela manhã abafada o Porão estava irrespirável.

Porão era apenas o apelido carinhoso dado pelos guardas àquele apertado buraco escavado no chão sob a antiga sede da fazenda, com nove metros quadrados e revestido com cimento de má qualidade. O teto era baixo, mas alto o suficiente para que um homem de 1,85 ficasse em pé, sua cabeça separada do teto apenas por dois dedos. Milhares de cheiros se confundiam naquele ambiente abafado: fezes, urina, suor, sangue e o tênue, quase imperceptível, cheiro de morte; cheiro dos antigos moradores daquele “adorável” Porão. O único comongol existente era ineficaz em dissipar o odor fétido do lugar. A iluminação era escassa.

Em uma parede ficava a porta, única entrada e saída. Era feita em ferro maciço, recoberta de chumbo e com material acústico à prova de som. Na parede oposta ficava um emaranhado de correntes, algemas e um catre. E isso era tudo.

Poucos sabiam da existência do Porão, menos ainda sabiam dos “inquilinos” hospedados. O movimento era constante, era um lugar muito requisitado, mas naquele dia um alvoroço fora do comum chamara mais a atenção para aquele lugar: haviam capturado o único sobrevivente de um dos inúmeros e perigosos grupos insurgentes que ameaçavam a nação.

Nesta manhã haveria choro e ranger de dentes.


***


O mundo era um capuz preto. Distinguia apenas os sons, passos descendo degraus de uma escada. Seu ombro e perna ainda doíam bastante, mas haviam estancado o sangramento, parece. Não conseguia organizar direito o pensamento, tudo ainda era um grande borrão de imagens, sons e dores, mas sabia que havia sido capturado. Por quê?

Um rangido agudo interrompeu seus pensamentos. Atrito de metal contra metal.

Subitamente, os braços que o levavam jogaram-no, e ele se chocou contra a superfície áspera e irregular do chão daquele cômodo. O cheiro era nauseante. Tiraram o capuz que cobria sua cabeça, mas ainda permanecia algemado. Ao ver onde estava seu coração disparou, lembrou-se do motivo pelo qual optara viver e imediatamente soube que fora uma escolha ingênua. Não sairia daquele lugar.

Seu corpo esmoreceu, suas poucas forças o abandonaram. Foi se arrastando para longe dos dois guardas, que calmamente, andaram até ele e o prenderam nas correntes. Esperava ver sorrisos de vitória, mas viu apenas rostos sérios com uma sombra de pesar nos olhos. Seria... compaixão?

Sua esperança acendeu, uma trêmula luz fraca no escuro do sufocante Porão. Pensou em implorar, mas verbalizou apenas um “me sinto fraco... preciso... de água”. Inútil. Os guardas viraram-se e saíram do cômodo, fechando a pesada porta atrás deles com mais um ranger estridente.

Estava só naquela masmorra.


***


A janela aberta deixava o pouco vento daquela manhã entrar. As cortinas, presas com fitas douradas e vermelhas, balançavam vagamente quando alguma brisa entrava na sala.

Era ampla, com duas paredes cobertas de livros, dossiês e informações sigilosas organizados em cinco níveis de prateleiras de madeira maciça. Nela havia uma mesa ampla de madeira escura e uma cadeira também grande. Posicionada perpendicularmente à janela ficava uma poltrona de couro e era lá que ele estava, a fumaça de seu cachimbo elevando-se lentamente em curvas etéreas, mesclando-se gradativamente com o invisível ar daquela quente e bela manhã de verão.

“Como queria estar em casa... como queria ser mais um trabalhador comum, com a crença na ignorância....”, pensou, “... como não queria ter que cumprir minha função. Como gostaria de não ter me envolvido nisso...”, suspira, “... como gostaria de ter uma noite de paz.”

Levanta-se, o peso do mundo em suas costas, sua consciência uma bola de chumbo arrastando seus passos, no seu rosto uma expressão tranquila traída por olhos tristes de estátua. Eram apenas jovens, meninotes saídos das fraldas, ainda cheirando a leite... mas já havia matado vários. Por mais que lavasse, haveria, para sempre, sangue em suas mãos.

O carpete que cobra o chão da sala abafava seus passos. Com um gesto tranquilo, girou a maçaneta da porta, depositou o cachimbo numa mesinha de canto e saiu.

A sombra da Morte em seus calcanhares.

***

Acorrentado á parede, com sede, fome, calor e ferido.

Sentia-se um velho derrotado, apesar dos vinte e poucos anos. “Apesar de tudo é melhor viver”, pensava tentando forçar algum pensamento salvador, “quando eu sair daqui... quando eu sair daqui vou voltar à luta! Vou voltar a servir à causa!”.

A pouca luz que entrava pelo comongol era suficiente apenas para dar-lhe uma pouca noção do cubículo apertado em que se encontrava. Sabia onde estava. Sabia o que eram aquelas manchas amarronzadas no chão e no catre no qual sangrava. Sabia o que havia acontecido àqueles que estiveram lá antes dele. Não queria morrer ali.

“Não vou morrer aqui. Não posso morrer aqui! Nem que eu tenha que...” não sabia o que dizer. Não sabia o que poderia fazer para sair dali. Nunca saíam dali.

“Eu vou morrer aqui. Eu vou apodrecer em algum lugar desse terreno. Eu já estou morto”.

A porta se abriu. A sombra da Morte lhe sorria.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Cinza #2: Ideologia


Sentado na penumbra de seu quarto, observava um ou outro carro passando pelo viaduto vazio que se erguia diante de sua janela. A insônia sempre fora sua companheira de vida, desde a infância. A insônia sempre lhe ajudara a ver o mundo como realmente era, sem as pinturas dos dias ensolarados. A insônia sempre o fez ser superior à maioria.

Estava tudo pronto. Ele pacientemente esperava o romper do dia para, junto com seus camaradas, executar mais um plano, dar mais um passo rumo à liberação.

Democracia? Não... democracia não era uma opção para um mundo como esse. Nisso os dirigentes haviam acertado, apenas não na natureza do regime.

Ditadura... sim, ditadura! Poder para a base da pirâmide!

Mas ao mesmo tempo sabiam que a massa não tinha competência para se governar. A massa é massa. A massa é gado, peões de manobra, e eles saberiam se utilizar disso. Precisavam de força, precisavam de vozes, precisavam de músculos, não de olhos, ouvidos ou intelectos.

Os seus três camaradas dormiam em colchões espalhados ao acaso pelo assoalho frio daquele apertado apartamento alugado. No banheiro, as armas estavam empilhadas num canto, dentro de uma sacola. Armas velhas e enferrujadas: dois revólveres, uma pistola dos anos 40 e uma rústica submetralhadora, que roubaram do baú de recordações do avô de um de seus colegas.

Ele apenas observava. Se tudo desse certo sairiam ilesos, com mais armas e dinheiro, se não... morte era o destino mais adequado. Melhor que apodrecer nos porões-masmorra...

Um de seus comparsas acordou e, ainda sonolento, sugeriu que dormisse um pouco, que precisavam dele no seu melhor estado para a investida do dia seguinte. Brusca e secamente mandou-o calar a boca e voltar a dormir, sem sucesso. Da boca de seu camarada saíam perguntas imbecis e incômodas, questionamentos sobre seus motivos, suas filosofias, suas crenças, sua determinação... levantou-se, foi até ele, respiração pesada, punhos cerrados, uma aguda irritação em seu peito por causa da meditação interrompida, um rosto sereno, assustador. Parou diante do inoportuno questionador e disse, num tom calmo, pontuando bem as palavras: “Por meus objetivos, eu mataria minha família inteira”.

Depois disso nenhuma palavra a mais foi proferida.


***


Tarde demais, tudo deu errado.

Deitado de bruços no concreto quente da calçada, com metade do rosto no sangue de seus companheiros e balas em sua perna direita e ombro esquerdo, seu futuro parecia traçado: a morte. Era preferível morrer, pelo bem da causa. Todos os outros haviam morrido, só ele continuava vivo. Isso era injusto, mas também... também era uma oportunidade! Ele não queria morrer tão jovem, quem poderia saber o que o futuro lhe reservaria?

Em frações de segundos tudo poderia ter acabado ali. Bastava um movimento rápido de seu braço direito e “bam”, morto por movimentos bruscos. Mas ele optou por viver. Melhor seria se fosse o único sobrevivente de um ato heroico, melhor ser ícone, líder!

Mãos fortes agarraram-no pelos braços e seu ombro gritou a dor da carne, sangue ainda saía dos locais atingidos. Estava tonto, provavelmente pela perda de sangue, mas estava, apesar de tudo, satisfeito. “Matei meus camaradas, mas meu nome irá permanecer entre os vivos!”.

Com um baque seco, quando foi jogado no fundo da viatura, tudo escureceu, firmou os pés na terra de Hipnos.


terça-feira, 5 de março de 2013

Cinza #1: Dever


Era bom estar em casa.

Era bom sair, uma vez por mês que fosse, daquele lugar e estar com sua esposa e filhos.

Casa.

Cheiros, gostos, músicas, sorrisos, sentimentos...

Era muito bom estar em casa.

Acordado, ainda deitado na cama, ouvia os barulhos da cidade. Carros passando pelas ruas de paralelepípedo, vendedores de jornal gritando as ultimas manchetes, vozes indistintas dos pedestres...

Dentro de casa, ao seu lado, sua mulher ressonava num sono tranquilo, o sono dos justos. Ele, por outro lado, não conseguiu dormir direito e acreditava que não conseguiria mais ter uma boa noite de sono para o resto de sua vida.

Seu trabalho o consumia.

“É tudo para o bem comum. É com a visão no futuro que tenho que fazer tudo aquilo que me é ordenado, sem hesitar, sem questionar” dizia para si mesmo todos os dias. Cumpria com suas obrigações como esperado, até demonstrando uma certa alegria nisso, mas sentia-se mal toda vez. Seu estômago embrulhava sempre que voltava àquele pedaço de terra.

De repente se percebeu fitado por dois profundos olhos azuis. Dois olhos azuis que amava. Pelo olhar que lhe dava, ela sabia no que estivera pensando.

Suas mãos passearam por seu abdômen e chegaram ao seu rosto, sua boca aproximou-se do seu ouvido e sussurrou um “não se preocupe” carinhoso e sonolento. Beijaram-se.

Era realmente muito bom estar em casa.

***

Estava vestido com o uniforme, sozinho no escuro.

De pé no barro batido, ouvia rugidos, vozes e sussurros a sua volta. De repente uma luz. Viu-se cercado das pessoas que gostava: sua mulher, seus dois filhos, seus amigos do antigo trabalho.

Não mais. Rostos vazios e esfomeados o encaravam, xingavam e pediam piedade. Em suas mãos um chicote, mas não um chicote, a coluna vertebral de alguém. De sua mulher.

Gritou, o horror em sua alma o consumindo.

Acordou.

Era fim de madrugada, mas se recusava a voltar a dormir. Em vez disso, seguiu para a sala e relembrou, sentado em sua poltrona, essa curta semana que passara em casa, que passara em paz.

Pegou seu cachimbo na estante, encheu-o com tabaco, acendeu-o e pôs-se a tragar displicentemente, a fumaça levando embora cada traço de humanidade que havia reposto nesse curto tempo. Teria de ser impassível, de ferro, bronze e prata.

Os primeiros raios do dia começavam a se insinuar pelas janelas. Era o dia de voltar pro seu trabalho. Era o dia de voltar pro seu propósito. Era o dia de voltar ao seu sacrifício.

Sem mais sorrisos, sem mais alegria, sem mais amor. Seu sobretudo o zombava de dentro do guarda-roupas. Cinza ele teria que ser para passar por mais um mês.

Mais tarde, enquanto voltava para o isolado pedaço de terra que havia sido uma fazenda, apenas um pensamento se repetia em sua cabeça: “queria poder ter escrito um livro, plantado uma árvore e não ter feito parte disso”.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Medo Noturno


Ele estava deitado em sua cama, como em milhares de noites antes dessa. Pensava da forma vaga e imprecisa na qual pensamos quando estamos prestes a entrar no torpor do sono quando um pensamento sóbrio lhe cruzou a cabeça: “finalmente parece que tudo está se acertando”.

Sentiu alegria, alívio, serenidade. Medo.

“Medo?” pensou, voltando à plena consciência. “Medo do que? Por que eu teria medo de estar tudo bem?!”

Passou alguns minutos no escuro, o som do ventilador de teto como seu companheiro. Em sua cabeça milhares de vozes, todas suas, tentavam encontrar um “por que” pra esse medo súbito. Ansiedade aumentava em seu peito.

Após alguns longos minutos de angústia na escuridão a resposta lhe veio como um tapa: “tenho medo de que possa morrer justo agora. Tenho medo de perder esse conforto, tenho medo de não ser bom ou merecedor o suficiente. Tenho medo.”

Ficou estupefato com sua conclusão. Encarou o escuro longamente (e dessa vez sem suas várias vozes internas), deitou e tentou dormir. Depois de alguns minutos de ansiedade e estupefação, dormiu.

O dia seguinte nunca veio.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

E os heróis se fizeram carrascos... Só que não.


Ah, nossa costume de fazer heróis...

Há mais ou menos um mês e meio começou o julgamento do mensalão e, logo, o ministro Barbosa ganhou destaque tanto por seu histórico de vida quanto pelo seu julgamento aparentemente inflexível e correto, satisfazendo grande parcela da população brasileira. Ele logo seria chamado de Batman e “herói da toga preta”. Depois de poucas semanas seus colegas também começariam a ser chamados de heróis por alguns, virando assim “os vingadores patriotas”. Eu nunca concordei com essa postura, nunca.

Quando se faz de alguém um herói presume-se que todas as suas atitudes são norteadas por motivos nobres, por intenção de fazer o bem supremo acima de tudo. Presume-se uma certa ausência de “defeitos” (se é que podemos usar esse termo) e a impossibilidade de não agirem com o bem em seus corações. Em resumo: nós, lindos seres humanos, não podemos ser heróis.

Agora, desde o início dessa semana, os heróis se tornaram renegados e o julgamento do mensalão, antes visto como o nobre campo de batalha dos nossos heróis, agora é o cadafalso dos temerários e hipócritas assassinos de índios.

Não há mais vingadores. Não há mais Batman. Não há mais patriotismo.

Ahh, nossa moral de folhetim...

sábado, 15 de setembro de 2012

Crônicas do Esquecimento #3: Lampião a Gás


- Beto, já consertou o lampião?

- Oi?

- Perguntei se já consertou o lampião.

- Ah sim. Não, ainda não.

“A noite e escura e cheia de horrores”, assim ele lembrava de ter lido em algum lugar. Mas lá as noites, mesmo as mais escuras, possuíam algum brilho, algum encanto, e os horrores eram sombras, monstros e mortos. No caos que se tornou a vida real as noites, mesmo as enluaradas, eram breus de desespero e os horrores eram os homens, os animais e a fome. Para afastar as trevas era necessário que se fizesse a luz, mas o lampião havia quebrado e restava apenas um toco quase morto de vela. Em breve estariam sós; ele, Bárbara e o bebê ainda sem nome em breve seriam beijados pela escuridão de uma noite nublada.

Para sua negativa não houve resposta falada, só um consentimento pessimista mudo. Fora o barulho feito enquanto tentava consertar o lampião o silêncio era absoluto. Até os grilos pareciam ter se calado frente à atmosfera tensa dos últimos meses. A sujeira de dias se acumulava em suas roupas, em seus utensílios e em seu corpo, mas já não ligava tanto. Enquanto tivessem água, comida e luz tudo estaria bem. Pelo menos não morreriam de desnutrição ou sede, como soube que vinha acontecendo em vários lugares.

- Sabe Beto, - ela quebrou o silêncio – às vezes acho que isso é só um pesadelo.

- Hum...

- Quer dizer... putz, todas as máquinas que trabalham com qualquer princípio inteligente...

- Automático ou de armazenamento de energia...

- Sim, que seja, enfim, todas elas pararam de funcionar! Isso é coisa de filme cara! Isso é coisa de filme Cult, sabe? Que aquela galerinha estranha curte...

- Curtia.

- Pare de me corrigir! Porra, tô aqui tentando quebrar esse silêncio desgraçado e você fica aí fazendo pouco caso, me corrigindo! Quer silêncio? Pois vá, saia sozinho, só deixe o lampião comigo!

- Bá, pare com isso.

- Ah, agora tá ruim, é?

- Você vai acordar o bebê.

- O beb- Ih, o bebê! Meu Deus, como pude esquecer do bebê?!

- Você o que?!

- Não, calma, ele tá aqui, só tinha me esquecido da existência dele.

- Você esqueceu de seu filho?! Não se esquece que um filho existe!

- Nosso filho. NOSSO filho, Beto. Você constantemente parece esquecer que teve uma função fundamental pra que ele existisse.

- Bá, você sabe que...

- Ah, não venha com essa de não saber se você é o pai! É claro que é você!

- Bá... não quero mais falar sobre isso.

- Não quer mais? Mas vai ter que ouvir! Eu estou cansada, Beto! Não aguento mais andar, andar, amamentar, andar, comer mal, andar, dormir debaixo de um teto qualquer, com medo, insegura, com um bebê...

Pensou em dizer algo como “então morra!”, mas se conteve.

- Bá... me desculpe. Vamos achar um lugar pra ficarmos em segurança.

- Esse lugar não existe, Beto. Não vamos nunca mais ficar em segurança, você sabe, você mesmo me disse isso! Deus... não sei porque continuamos vivendo!

- Bá, o bebê...

- Ele tá aqui, não acordou, fique tranquilo.

Ele olhou pra a vela, estava muito mais curta do que se lembrava, tinha que consertar logo o lampião ou caso contrário passariam toda a noite no escuro.

De repente teve uma sensação de deslocamento, como se nada fosse real, como se tudo fosse um sonho, e lembrou que não sabia como ajeitar aquele lampião. Iriam passar a noite no escuro.

- Bá...

- Shh! O bebê!

- Olha... eu acho que...

- Vai acordar o bebê! Fale baixo!

- ... vamos passar a noite no escuro.

- Acho que ele fez cocô... deixa eu olh– AHH!

- O que foi?!

- Beto, ele... ele... Beto, ele tá morto!

- O que?! Não é possível! Ele tava bem hoje de manhã! Deixa eu ver aqui, me dá ele!

Não apenas o bebê estava morto, mas estava se decompondo a olhos vistos, até ele, que era leigo, sabia que era algo de mais de uma semana.

- Bá, como... como não percebemos?

Ela, em lágrimas, não respondeu.

- Bá, me lembro que você o amamentou hoje! Bá, não... não entendo!

E numa rajada de vento, o que havia de chama se apagou.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Crônicas do Esquecimento #2: Ecos


- Rápido, a antena! Consertem a antena!

Gritava comandos como esse todos os dias agora, embora soubesse que pouco ou nada adiantava: as máquinas já não funcionavam de acordo com a vontade dos homens. De nada adianta consertar o que não está quebrado.

Há um mês as máquinas começaram a não executar suas funções. Há um mês a humanidade voltava gradativamente à Idade Média. Religiões começaram a anunciar o fim dos tempos (ou será que nunca pararam?), o êxodo urbano surpreendia cada vez mais, cidades industriais iam pouco a pouco se tornando cidades-fantasma. Também nunca se tinha visto índices de suicídio e homicídio tão altos na história da humanidade.

Caos, caos total e interminável. E ele ali, em relativa paz com o que sobrou de seu time de técnicos e engenheiros dentro daquele habitat hermético da NASA.

- A antena! Não podemos ficar sem contato com os astronautas!

Mas sabiam que a uma altura daquelas já deveriam estar mortos. A não ser que as máquinas não estivessem se recusando a trabalhar fora do planeta...

Essa mais recente expedição à lua foi um erro, em sua opinião. “É necessário reafirmar a América como líder mundial e, por que não, do sistema solar!” disse seu diretor na cerimônia de lançamento da espaçonave Icarus III. Onde estava ele agora? Deitado sobre sua mesa, com pequenos pedaços de seu cérebro e sangue espalhados pelo carpete azul de sua sala, iniciando o processo de decomposição.

- Vamos, a antena, merda!

Mas sabia que tudo o que fizesse seria inútil.


***


A comunicação com a Terra estava cortada há três dias, o sistema de reciclagem de oxigênio estava quase parando, não havia mais água potável, mas haviam chegado à lua novamente. 

“Não importa que tenhamos chegado aqui se todos amos morrer de fome, sede ou asfixia! Temos de tentar consertar nossos sistemas de sobrevivência!” insistia um de seus colegas. 

Mas nada havia para ser consertado.

Não tinham como sair dali, ela bem sabia.

Por isso ali estava, sozinha e com um dos poucos objetos eletrônicos (além dos trajes e luzes elétricas) que ainda funcionava. Desplugou o canal de áudio interno e conectou seu pequeno e antigo I-Pod.

Nesse momento uma sombra se fez perceber nas areias pálidas, ao seu lado. Era ele. Abraçaram-se longa e desajeitadamente, por causa dos trajes, mas, através do capacete dele, ela pôde ver o sorriso que tanto gostava encimado por aqueles olhos ora sérios, ora brincalhões, mas sempre sinceros.

Um não podia ouvir o outro, mas a música que tocava em seu traje falava por ambos e se comunicava em ecos intermináveis com a infinitude escura, fria e amedrontadora que os rodeava.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Crônicas do Esquecimento #1: Linha de Montagem


Ao soar da sirene as portas da montadora se abriram para a troca de turnos. O sol começava a se erguer por sobre a familiar camada de poluição que encobria maternalmente aquela cidade. Dos ônibus desciam os trabalhadores que, como nos últimos anos, vestiriam seus uniformes, operariam as prensas, soldas e moldes, teriam um breve horário de almoço, voltariam aos seus postos, suariam, teriam cãibras, dores nos olhos e costas, tomariam um rápido banho gelado, vestir-se-iam de homens e iriam para suas casas na esperança de sexo, alimento, descanso e dinheiro no fim do mês. Tudo perfeitamente dentro dos conformes.
Assim José vivia. Assim tudo funcionava perfeitamente.

A manhã transcorreu na mais perfeita monotonia: soldas, prensas, moldes e suor. O almoço teve o mesmo gosto cinza de todos os outros almoços, com as mesmas conversas e as mesmas pessoas. Corria tudo dentro dos conformes.

Até que no início da tarde, enquanto José e seus companheiros de sempre se preparavam para voltar pras posições, protelando ao máximo este evento inevitável, um silêncio súbito, seguido por uivos raivosos (ou seriam alegres?) tomou conta do galpão. Confuso, José ficou parado onde estava.

“As máquinas pararam!” ouviu alguém dizer em uma plataforma mais à esquerda. Não entendia. Como era possível todas as máquinas pararem ao mesmo tempo? Perguntou isso ao operário a sua direita. “Não é.” foi a simples resposta que recebeu. Estava confuso.

Pela primeira vez em muitos anos de trabalho, correu até o seu posto e tentou operar a solda. Nada. Pegou o kit de manutenção e olhou os mecanismos em busca de alguma falha. Nada. Via seus colegas fazendo o mesmo, também sem sucesso. “Talvez seja uma falha nos comandos a fábrica” disse entre os dentes, meio ansioso para que fosse verdade, mas desejando que fosse mentira. Odiava o trabalho que tinha, mas sem trabalho não havia dinheiro e dinheiro era necessário para acalmar as ânsias da mulher, par pagar a escola dos filhos e para relaxar no bar do Caçula no domingo... portanto tinha que trabalhar!

Entre o burburinho e os uivos esporádicos, os autofalantes da fábrica reproduziram a voz esganiçada do diretor: “Atenção todos os operários! Pedimos que se mantenham calmos e permaneçam em seus postos. Aparentemente estamos passando por dificuldades técnicas nos comandos centrais da fábrica, porém dentro de pouco tudo estará resolvido Agradecemos a cooperação de vocês”.

José sentou, esperou e, em pouco tempo, cochilou.

***

Daniel estava ficando louco. Havia três semanas que tentava, em vão, reprogramar e colocar todas as máquinas da fábrica em funcionamento. Os diretores faziam pressão, mas não havia nada que pudesse fazer, era como se as máquinas se recusassem a aceitar os comandos. Três dos sete técnicos de sua equipe já haviam pedido a recisão do contrato depois da notícia que algumas outras fábricas ao redor do mundo começaram a parar sem razão, explicação ou qualquer defeito aparente. “Se nem a NASA sabe o que está acontecendo você acha que nós, meros técnicos provincianos, vamos conseguir consertar algo?” disse um deles após anunciar sua decisão.

Os prejuízos eram enormes: por dia bilhões de dólares deixaram de circular em forma de mercadoria, em uma semana um terço dos trabalhadores fabris tiveram de ser demitidos e os outros tiveram o salário tremendamente reduzido. As balanças comerciais ao redor do mundo estavam descompensadas, ninguém sabia mais o que fazer.

“Sabe de uma?” pensou Daniel, “eles é que tem razão! Nunca vamos consertar isso.”. Levantou-se, deixando todo seu material na sala de controle da fábrica vazia. Na noite só os grilos faziam barulho. Foi até o seu carro e girou a chave na ignição: nada, nem o mais rouco dos sons de partida.

O carro se recusava a executar sua função. 

domingo, 12 de agosto de 2012

Crônicas do Esquecimento


O dia amanhecia como havia amanhecido trilhões de vezes. Alguns iam dormir, outros acordavam. Tudo dentro dos conformes.

Em inúmeras casas despertadores despertavam sonhadores, trabalhadores, estudantes. Cansados, sonolentos ou irritados eles se levantavam para mais um dia da honrada jornada mecânica que fazia o mundo girar. Tudo dentro dos conformes.

Em alguns quartos pessoas que há muito não dormiam percebiam o sol nascendo e filtrando a escuridão.  Em outros se dormia sem o conhecimento do sol que nascia. Tudo dentro dos conformes.

Alguns momentos mais tarde os cansados, sonolentos e irritados se dirigiam para os locais de todo dia para realizar suas tarefas de todo dia e voltarem para casa insatisfeitos, deslocados ou frustrados, como todo dia. Tudo dentro dos conformes.

As ruas começavam a pulsar com a vida honrada e correta, enquanto a vida obscura se recolhia ou camuflava entre os demais. Vários rostos, corpos e mentes numa massa única. Tudo dentro dos conformes.

Mas não por muito tempo.